"A chispa"
Este blog é um espaço para o debate e para a produção de pensamento crítico desde a educação. A idéia nasce da tentativa de alguns estudantes e professores de História e Filosofia de socializar experiências e construir práticas alternativas; Fazer um processo coletivo de produção de conhecimento, indagando a função social do professor e ao mesmo tempo pensar a "práxis" de maneira coerente e comprometida com a nossa realidade social. Neste espaço debateremos questões teóricas relacionadas a educação e também abriremos o espaço ao debate político, pois é inegável a relação que existe entre educação e política. Convidamos a todos aqueles que queiram fazer o debate sério e propositivo. Mãos a obra e ao debate!
sexta-feira, 4 de junho de 2010
Ataque brutal do Estado Terrorista de Israel
Israel ataca frota de ajuda humanitária
Manifestações em todo o mundo repudiam brutalidade do Estado terrorista de Israel
Mais uma vez uma ação militar de Israel choca o mundo. Agora, porém, a brutalidade captada pelas câmeras de TV e a covardia demonstrada pelo exército israelense parecem ter ultrapassado todos os limites.
Na madrugada desse dia 31 de maio, segunda-feira, um comboio de ajuda humanitária com destino a Gaza, composto por seis navios que transportavam 750 pessoas e 10 toneladas de alimentos, foi atacado por Israel antes mesmo de entrar no território do país.
Os dados ainda são desencontrados, mas o número de tripulantes assassinados pode variar de 10 a 20, enquanto os feridos chegam a 60. O comboio pertencia à organização Gaza Freedom e era encabeçado por uma embarcação turca. O navio turco “Marvi Marmara” foi interceptado por três navios de guerra israelense. Helicópteros transportaram os soldados que invadiram a embarcação e abriram fogo contra os tripulantes.
“Isto não foi um confronto, foi um massacre!”, afirma nota do Gaza Freedom. Toda a ação foi captada pela TV turca. Veja reportagem da All Jazeera sobre o ataque:
Estado terrorista
O próprio governo de Israel reconheceu que o ataque ocorreu em águas internacionais. O governo de Benjamin Netayanhu, porém, se defendeu afirmando que os soldados que invadiram o navio haviam sido recebidos com tiros e que os tripulantes pertenciam à Al Qaeda e ao Hamas. Antes, já haviam declarado que o comboio de ajuda humanitária era uma “provocação política” contra Israel.
O comboio, porém, trazia pessoas de 60 nacionalidades diferentes, entre ativistas de ONG’s, parlamentares europeus e até mesmo uma premiada por um Nobel da Paz, a ativista irlandesa Mairead Corrigan Maguire, que recebeu o prêmio em 1976.
Os barcos de ajuda humanitária foram transportados ao sul de Israel e os ativistas estão sendo deportados aos seus países de origem. A imprensa não pode se aproximar do local e os presos estão incomunicáveis.
A ação brutal de Israel provocou uma onda de protestos em várias partes do mundo. Na Turquia, mais de 10 mil pessoas marcharam contra Israel. Manifestações de repúdio à brutalidade israelense também ocorrem em outras capitais, como Londres.
Num momento em que se discute o enriquecimento de urânio por parte do Irã, e que os EUA pressionam o Conselho de Segurança da ONU para impor sanções contra o país, Israel demonstra quem é de fato o estado terrorista do Oriente Médio.
Em Israel, judeus e palestinos protestam contra ataque
Enviada do Brasil de Fato à Palestina relata manifestações de repúdio em toda a região contra ataque a barcos que carregavam ajuda humanitária
Dafne Melo
enviada a Asdud (Palestina)
Em frente ao mar, na cidade portuária de Asdud – Ashdod para Israel –, um grupo de ativistas se reuniu, no dia 31 de maio, para protestar contra o ataque, ocorrido na madrugada anterior, das Forças Armadas israelenses à frota humanitária que levaria ajuda e solidariedade aos palestinos da Faixa de Gaza. A maioria dos cerca de 200 manifestantes, acompanhados de perto por um grupo do Exército de Israel e por um barco pequeno com dois soldados no mar, são judeus de esquerda que se opõem à política do governo israelense e que integram movimentos e organizações pró-Palestina. Devido aos fortes bloqueios militares, ao muro construído em torno de grande parte da Cisjordânia e à proibição da livre circulação de cidadãos palestinos pelo território ocupado por Israel, a ida da maioria dos palestinos à cidade de Asdud é quase impossível.
A todo instante, chegam notícias de manifestações na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Jeff Halper, do Comitê Israelense contra a Demolição de Casas, é um dos militantes cujo celular toca repetidamente. Ele explica que as manifestações deverão continuar por toda a semana, o que deve acirrar os ânimos no país. Nas ruas de Jerusalém, onde normalmente já existe um forte clima de militarização – homens e mulheres jovens com uniformes do Exército e metralhadoras em punho fazem parte da paisagem da cidade –, aumentou o número de policiais e soldados.
Na região dos territórios ocupados em 1948 e 1967, os trabalhadores palestinos declararam greve geral no dia 1º. Todo o comércio em Jerusalém Oriental se manteve fechado e, pelas ruas, taxistas árabes colocaram bandeiras da Turquia nas janelas dos veículos. A Autoridade Nacional Palestina (ANP) ainda declarou três dias de luto na Cisjordânia. Outras manifestações ocorreram em Jerusalém Ocidental e Tel Aviv, feita por judeus pró-Palestina, já que a maioria dos palestinos não tem acesso a essas regiões. Em Jerusalém Oriental , que ainda possui maioria palestina, houve confrontos com a polícia em diversos bairros nos quais os moradores organizaram manifestações e atos.
Tiro no pé
“Que hora interessante que vocês escolheram para vir à Palestina”, brinca Nassar Ibrahim, do Centro de Informação Alternativa em Beit Sahour. O palestino avalia que o ataque à frota irá gerar uma resposta internacional tão forte quanto a dos ataques à Faixa de Gaza, em dezembro de 2008 e início de 2009. “O que fizeram foi uma estupidez, acredito que agora haverá uma forte pressão. Uma hora Israel vai ter que começar a pagar por todos esses crimes”.
Jeff Halper avalia que, ainda que nunca se espere uma atitude de diálogo do atual governo de Israel, o ataque chegou a surpreender. “Até mesmo jornalistas israelenses que apoiam a saída militar, jornalistas que foram do Exército inclusive, como Ronny Daniel, do Canal 2, afirmaram que houve uso excessivo de violência; até ele estava surpreso”.
Para Khaled Hidmi, diretor da União de Comitês de Trabalhadores Agrícolas, ligada à Via Campesina, a atitude de Israel mostrou uma enorme estupidez, intolerância, além de deixar claro para o mundo todo que Israel não tem nenhum interesse em um processo de paz com os palestinos. “O que eles mostraram é que não se importam com as leis internacionais, que eles têm o poder para fazer o que quiserem”.
O militante acredita que tais atitudes são impulsionadas por uma corrente ainda mais à direita dentro dos partidos israelenses, que querem avançar com o projeto sionista. Ele prevê, entretanto, que, desta vez, Israel pode ter complicações, devido ao rechaço de diversos países – e cita o Brasil como exemplo. “Além disso, é uma atitude que coloca todos os países árabes contra o Estado de Israel, além da Turquia”.
Hidmi também aposta que se os países se mantiverem firmes e as manifestações populares ao redor do mundo continuarem, esse pode ser um ponto de inflexão nas relações israelenses e palestinas. “A máscara está caindo. Muitos jornais israelenses de direita têm criticado a atitude”, completa.
Mais mortes
Apesar de toda condenação internacional, Israel fez uma nova investida militar na Faixa de Gaza e matou cinco palestinos um dia depois do ataque à frota humanitária. Gaza é lugar mais pobre e populoso de toda a Palestina. Desde 2007, a região – governada pelo grupo islâmico Hamas – sofre um forte bloqueio. Toda a área é cercada por forças militares israelenses.
Khaled Hidmi descarta a possibilidade de haver retaliações por parte do Hamas, já que há um acordo entre os movimentos e partidos sociais palestinos, desde 2006, de não lançar mão de retaliações e ataques violentos. “Não há chance disso ocorrer”, garante. O militante, porém, alerta que Israel poderá usar todo tipo de argumento para justificar suas ações, tal como fez com o ataque aos barcos. Inicialmente, afirmaram que havia terroristas e membros da Al-Qaeda na embarcação e que os ativistas iniciaram os ataques. “Agora, pelas imagens, todos sabem que eles entraram atirando. Havia integrantes da frota enviando textos pelo Twitter e as últimas mensagens que obtivemos foram de que eles chegaram silenciosamente e atacaram”, conta Jeff Halper.
O israelense acredita que essa é uma grande oportunidade para punir Israel severamente. “Israel cometeu mais uma vez um crime, tal como faz todos os dias. Existe uma lei internacional que proíbe que se capturem barcos em oceanos. E , mesmo que o barco estivesse em águas israelenses, a ação desmedida não se justificaria. Para mim, se eles estão trazendo as pessoas a força para cá, isso é sequestro, e eu não sei porque Israel não será julgado por isso. Israel pode fazer tudo o que quiser, quebrar todas as leis internacionais, e não se preocupar com as conseqüências. Agora, talvez, tenhamos a chance de começar a mudar essa situação”, conclui.
Iara Lee
A brasileira Iara Lee, cineasta e ativista social, era uma das integrantes da "Flotilha da Liberdade", um grupo de seis navios que transportava mais de 750 pessoas com ajuda humanitária para a Faixa de Gaza e que foi atacado por Israel na madrugada dessa segunda-feira (31/5). Ainda não há informações sobre seu paradeiro.
Abaixo, um texto escrito por Iara pouco antes da viagem.
Por que vou a Gaza
Em alguns dias eu serei a única brasileira a embarcar num navio que integra a GAZA FREEDOM FLOTILLA. A recente decisão do governo israelense de impedir a entrada do acadêmico internacionalmente reconhecido Noam Chomsky nos Territórios Ocupados da Palestina sugere que também seremos barrados. Não obstante, partiremos com a intenção de entregar comida, água, suprimentos médicos e materiais de construção às comunidades de Gaza.
Normalmente eu consideraria uma missão de boa vontade como esta completamente inócua. Mas agora estamos diante de uma crise que afeta os cidadãos palestinos criada pela política internacional. É resultado da atitude de Israel de cercar Gaza em pleno desafio à lei internacional. Embora o presidente Lula tenha tomado algumas medidas para promover a paz no Oriente Médio, mais ação civil é necessária para sensibilizar as pessoas sobre o grave abuso de direitos humanos em Gaza.
O cerco à Faixa de Gaza pelo governo israelense tem origem em 2005, e vem sendo rigorosamente mantido desde a ofensiva militar israelense de 2008-09, que deixou mais de 1.400 mortos e 14.000 lares destruídos. Israel argumenta que suas ações militares intensificadas ocorreram em resposta ao disparo de foguetes ordenado pelo governo Hamas, cuja legitimidade não reconhece. Porém, segundo organizações internacionais de direitos humanos como Human Rights Watch, a reação militar israelense tem sido extremamente desproporcional.
O cerco não visa militantes palestinos, mas infringe as normas internacionais ao condenar todos pelas ações de alguns. Uma reportagem publicada por Amnesty International, Oxfam, Save the Children, e CARE relatou, “A crise humanitária [em Gaza] é resultado direto da contínua punição de homens, mulheres e crianças inocentes e é ilegal sob a lei internacional.”
Como resultado do cerco, civis em Gaza, inclusive crianças e outros inocentes que se encontram no meio do conflito, não têm água limpa para beber, já que as autoridades não podem consertar usinas de tratamento destruídas pelos israelenses. Ataques aéreos que danaram infraestruturas civis básicas, junto com a redução da importação, deixaram a população em Gaza sem comida e remédio que precisam para uma sobrevivência saudável.
Nós que enfrentamos esta viagem estamos, é claro, preocupados com nossa segurança também. Anteriormente, alguns barcos que tentaram levar abastecimentos a Gaza foram violentamente assediados pelas forças israelenses. Dia 30 de dezembro de 2008 o navio ‘Dignity’ carregava cirurgiões voluntários e três toneladas de suprimentos médicos quando foi atacado sem aviso prévio por um navio israelense que o atacou três vezes a aproximadamente 90 milhas da costa de Gaza. Passageiros e tripulantes ficaram aterrorizados, enquanto seu navio enchia fazia água e tropas israelenses ameaçavam com novos disparos.
Todavia eu me envolvo porque creio que ações resolutamente não violentas, que chamam atenção ao bloqueio, são indispensáveis esclarecer o público sobre o que está de fato ocorrendo. Simplesmente não há justificativa para impedir que cargas de ajuda humanitária alcancem um povo em crise.
Com a partida dos nossos navios, o senador Eduardo Matarazzo Suplicy mandou uma carta de apoio aos palestinos para o governo de Israel. “Eu me considero um amigo de Israel e simpatizante do povo judeu” escreveu, acrescentando: “mas por este meio, e também no Senado, expresso minha simpatia a este movimento completamente pacífico…Os oito navios do Free Gaza Movement (Movimento Gaza Livre) levarão comida, roupas, materiais de construção e a solidariedade de povos de várias nações, para que os palestinos possam reconstruir suas casas e criar um futuro novo, justo e unido.”
Seguindo este exemplo, funcionários públicos e outros civis devem exigir que sejam abertos canais humanitários a Gaza, que as pessoas recebam comida e suprimentos médicos, e que Israel faça um maior esforço para proteger inocentes. Enquanto eu esteja motivada a ponto de me integrar à viagem humanitária, reconheço que muitos não têm condições de fazer o mesmo. Felizmente, é possível colaborar sem ter que embarcar em um navio. Nós todos simplesmente temos que aumentar nossas vozes em protesto contra esta vergonhosa violação dos direitos humanos. (do Opera Mundi)
A entrevista de Iara Lee à BBC Brasil
‘Vi muito sangue e comecei a passar mal’, diz brasileira sobre ataque de Israel
Babeth Bettencourt
Da BBC Brasil
A ativista e cineasta brasileira Iara Lee, detida por tropas israelenses na ação militar contra embarcações que levavam ajuda humanitária a Gaza na segunda-feira passada, disse que viu “muito sangue” e que começou “a passar mal” quando subiu ao convés do barco em que viajava.
Em entrevista à BBC Brasil, de Istambul, onde chegou nesta quinta-feira de madrugada junto com um grupo de cerca de 450 ativistas deportados de Israel, Iara contou que os atiradores de elite do Exército de Israel entraram no principal navio da frota, o Mavi Marmara, “atirando para matar”.
Ela disse que o operador de internet do barco foi morto com um tiro na cabeça.
“Ele estava na sala de operações, perto da ponte, por onde entraram os atiradores de elite. O corpo dele foi encontrado com um tiro na cabeça”, disse ela nesta quinta-feira, em Istambul, onde aguarda o embarque, na sexta-feira, para os Estados Unidos, onde vive.
Iara contou que estava embaixo do convés no momento do ataque, mas quando subiu para procurar seu cinegrafista, viu quatro corpos e vários feridos.
“Era muito sangue, eu comecei a passar mal, tive ânsia de vômito e até desisti de procurá-lo.”
Iara disse não ter testemunhado as mortes, mas que “outras pessoas que estavam no barco contaram ter visto soldados atirando corpos no mar”.
“Nossa contabilidade é de que 19 pessoas morreram. Ainda há gente desaparecida, não sabemos o que aconteceu com eles. E ainda há feridos muito graves, praticamente morrendo, que não conseguimos retirar do hospital em Tel Aviv.”
Violência desproporcional
Para a cineasta, a violência usada pelas tropas na ação foi desproporcional.
“Nos barcos pequenos, eles usaram balas de borracha, gás lacrimogêneo e armas de choque. Mas no nosso barco, eles chegaram usando munição de verdade”, conta.
“Foram atiradores de elite, todos vestidos de preto, armados”.
A cineasta contou que a abordagem israelense ocorreu por volta de 04h30 da madrugada, no escuro, e que foi muito rápida.
“Tinha dois barcos da Marinha. Quando a gente piscou apareceram dezenas de barcos de borracha, helicópteros, atiradores de elite descendo no barco. A marca registrada deles é o silêncio, fomos pegos de repente”, ela lembra.
Iara acredita que os soldados ficaram assustados com o número de passageiros a bordo – mais de 600 – e que, por isso, ele podem ter optado por uma ação rápida com o objetivo de assumir imediatamente o controle do barco.
“Esperávamos que eles atirassem para o alto, em direção aos nossos pés, para nos assustar. Imaginávamos que eles fossem tentar jogar redes nos nossos motores, deixar a gente à deriva no meio do mar, mas nunca imaginamos isso.”
Depois da abordagem, as embarcações da tropa foram levadas para o porto de Ashdod, em Israel, com todos os passageiros algemados. “Quando mandaram a gente descer do barco, já tinham jogado todo o conteúdo de nossas malas no chão, estava tudo misturado. Eram roupas, laptops, pijama, escova de dentes, tudo junto.”
Os ativistas voltaram para a Turquia apenas com a roupa do corpo e seus passaportes. Segundo a cineasta, todas as câmeras, telefones celulares e blackberries foram confiscados pelo Exército. Ela diz que perdeu US$ 150 mil em câmeras e lentes.
Mas Iara disse que os ativistas conseguiram salvar registros do ataque que teriam sido escondidos em peças de roupas.
“A gente conseguiu salvar algumas fitas com imagens do ataque, que costuramos nas nossas roupas e não foram encontradas pelas autoridades israelenses.”
Iara Lee saiu do Brasil em 1989 e passou 15 anos nos Estados Unidos, onde é radicada. Nos últimos cinco anos, ela morou em diversos países, entre eles Irã, Tunísia e França, onde filmou documentários.
CRISE ECONÔMICA
Cidadãos Europeus, Uni-vos!
A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital ou o futuro é o fascismo. O artigo é de Boaventura de Sousa Santos
Boaventura de Sousa Santos
Os dados estão lançados, o jogo é claro e quanto mais tarde identificarmos as novas regras mais elevado será o custo para os cidadãos europeus. A luta de classes está de volta à Europa e em termos tão novos que os atores sociais estão perplexos e paralisados. Enquanto prática política, a luta de classes entre o trabalho e o capital nasceu na Europa e, depois de muitos anos de confrontação violenta, foi na Europa que ela foi travada com mais equilíbrio e onde deu frutos mais auspiciosos.
Os adversários verificaram que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa socialista. Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de proteção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de
futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acúmulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a
Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos trabalhistas (facilitar demissões, reduzir indenizações). A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul.
A Europa está sendo vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da
devastação social. O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 bilhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há
dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 bilhões para salvar o sistema financeiro europeu?
A luta de classes está voltando sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho. O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois fatos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele
será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia. A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
Os adversários verificaram que a institucionalização da luta seria mutuamente vantajosa: o capital consentiria em altos níveis de tributação e de intervenção do Estado em troca de não ver a sua prosperidade ameaçada; os trabalhadores conquistariam importantes direitos sociais em troca de desistirem de uma alternativa socialista. Assim surgiram a concertação social e seus mais invejáveis resultados: altos níveis de competitividade indexados a altos níveis de proteção social; o modelo social europeu e o Estado Providência; a possibilidade, sem precedentes na história, de os trabalhadores e suas famílias poderem fazer planos de
futuro a médio prazo (educação dos filhos, compra de casa); a paz social; o continente com os mais baixos níveis de desigualdade social.
Todo este sistema está à beira do colapso e os resultados são imprevisíveis. O relatório que o FMI acaba de divulgar sobre a economia espanhola é uma declaração de guerra: o acúmulo histórico das lutas sociais, de tantas e tão laboriosas negociações e de equilíbrios tão duramente obtidos, é lançado por terra com inaudita arrogância e a
Espanha é mandada recuar décadas na sua história: reduzir drasticamente os salários, destruir o sistema de pensões, eliminar direitos trabalhistas (facilitar demissões, reduzir indenizações). A mesma receita será imposta a Portugal, como já foi à Grécia, e a outros países da Europa, muito para além da Europa do Sul.
A Europa está sendo vítima de uma OPA por parte do FMI, cozinhada pelos neoliberais que dominam a União Europeia, de Merkel a Barroso, escondidos atrás do FMI para não pagarem os custos políticos da
devastação social. O senso comum neoliberal diz-nos que a culpa é da crise, que vivemos acima das nossas posses e que não há dinheiro para tanto bem-estar. Mas qualquer cidadão comum entende isto: se a FAO calcula que 30 bilhões de dólares seriam suficientes para resolver o problema da fome no mundo e os governos insistem em dizer que não há
dinheiro para isso, como se explica que, de repente, tenham surgido 900 bilhões para salvar o sistema financeiro europeu?
A luta de classes está voltando sob uma nova forma mas com a violência de há cem anos: desta vez, é o capital financeiro quem declara guerra ao trabalho. O que fazer? Haverá resistência mas esta, para ser eficaz, tem de ter em conta dois fatos novos. Primeiro, a fragmentação do trabalho e a sociedade de consumo ditaram a crise dos sindicatos. Nunca os que trabalham trabalharam tanto e nunca lhes foi tão difícil identificarem-se como trabalhadores. A resistência terá nos sindicatos um pilar mas ele
será bem frágil se a luta não for partilhada em pé de igualdade por movimentos de mulheres, ambientalistas, de consumidores, de direitos humanos, de imigrantes, contra o racismo, a xenofobia e a homofobia. A crise atinge todos porque todos são trabalhadores.
Segundo, não há economias nacionais na Europa e, por isso, a resistência ou é europeia ou não existe. As lutas nacionais serão um alvo fácil dos que clamam pela governabilidade ao mesmo tempo que desgovernam. Os movimentos e as organizações de toda a Europa têm de se articular para mostrar aos governos que a estabilidade dos mercados não pode ser construída sobre as ruínas da estabilidade das vidas dos cidadãos e suas famílias. Não é o socialismo; é a demonstração de que ou a UE cria as condições para o capital produtivo se desvincular relativamente do capital financeiro ou o futuro é o fascismo e terá que ser combatido por todos os meios.
As lutas na Grécia jogam luz sobre a crise que atinge a Europa
Alex Callinicos
De um certo modo, a crise grega é mais um caso da conhecida chantagem e intimidação do mercado. Desistindo de ter sua própria moeda e aderindo ao euro, a Grécia uniu-se a uma das principais economias do mundo, a da Alemanha.
Isto permitiu que o Estado grego emprestasse dinheiro através de emissão de títulos públicos com taxas de juros mais baixas. Desse modo, em meados da década de 2000 a economia grega teve uma rápida expansão do crédito. Depois veio a crise.
Os bancos, maiores causadores da crise, foram resgatados com grandes custos para os cofres dos governos. Agora eles estão indignados com o conseqüente aumento do endividamento público e exigindo medidas de austeridade e cortes nos serviços públicos.
A Grécia é particularmente vulnerável, porque é uma economia relativamente pequena e fraca, e porque os mercados financeiros não têm muita confiança na capacidade de sua elite política para impor os cortes que estão exigindo.
Eles devem saber. A Reserva Federal dos Estados Unidos está investigando o papel desempenhado pela Goldman Sachs, provavelmente, o banco mais odiado de Wall Street, no sentido de ajudar a Grécia a camuflar sua dívida no momento do lançamento do euro, em 2001.
O atual governo grego, George Papandreou, está atravessando momentos difíceis. Tem que levantar cerca de 30 bilhões de dólares nos próximos três meses para substituir títulos que estão vencendo. Ele esperava que seu anúncio de cortes feitos no mês passado satisfizesse os mercados.
Mas no início de março, os preços dos títulos gregos caíram fortemente. Papandreou está sendo pressionado a continuar alimentando o animal capitalista com uma nova rodada de cortes exigidos pela União Européia. Seriam o equivalente a 1,5% da produção nacional, três vezes o tamanho do pacote anterior.
Mas a crise grega também é uma crise da Alemanha, o gigante da zona euro. Governada pela coalizão entre vermelhos e verdes entre 1998 e 2005, a Alemanha sofreu uma forte reorganização econômica, que baixou os salários e aumentou a competitividade das suas empresas.
A Alemanha, como a China, é uma economia orientada para a exportação de bens manufaturados. A comparação vai mais longe, como a edição de domingo passado do jornal Washington Post destacou:
"Como resultado do comércio desigual, a Alemanha goza agora de um relacionamento com seus parceiros do euro. Não muito diferente do que acontece entre China e Estados Unidos. Um, como fornecedor e financiador e os outros, como compradores".
"Nos últimos dez anos, a Alemanha, que agora tem o maior superávit comercial do mundo, depois da Arábia Saudita, viu as vendas para a Grécia, Espanha e Portugal aumentar 66%, 59% e 30%, respectivamente”.
"Os bancos alemães também têm investido pesadamente na Grécia, Espanha e Portugal. Mas a Alemanha tem importado relativamente pouco desses paises".
Privilégios
As pequenas economias européias estão acorrentadas por sua adesão à Zona do Euro, uma economia na qual suas empresas não conseguem competir em condições de igualdade. Além disso, uma vez que utilizam o euro, não podem desvalorizar sua própria moeda e, assim, baratear suas exportações.
Daí, a crescente pressão contra propostas de que a Alemanha ajude a Grécia. A imprensa alemã está cheia de histórias ridículas sobre os privilégios dos trabalhadores do setor público grego.
Os trabalhadores gregos são provavelmente os mais combativos na Europa. Após a greve geral na semana passada, a classe dominante grega teme um "dezembro dos trabalhadores". Uma versão operária da revolta dos jovens que sacudiu a Grécia em Dezembro de 2008.
Portanto, não é surpreendente que Josef Ackerman, chefe do Deutsche Bank, tenha se reunido com Papandreou em Atenas, no início de março, aparentemente para discutir um possível acordo. Mas a própria Grécia, representa apenas 2% a 3% da produção da Zona do Euro. Já a Espanha, responde por quase 12%.
Um artigo no jornal de segunda-feira do Financial Times intitulado "Mercados querem punir a Espanha", advertiu, “aconteça o que acontecer em Atenas, é quase certo que os mercados vão em breve voltar seu gélido olhar para as demais economias vulneráveis da Zona do Euro".
A besta quer ser alimentada novamente.
Cobiça, regulação ou capitalismo - Claudio Katz
O agravamento da crise já faz parte do panorama quotidiano. Os meios de comunicação incluem frequentemente o desmoronamento de algum banco, o despenhamento das bolsas e anúncios de despedimentos massivos. A intensidade do tremor está à vista, mas as suas causas permanecem na obscuridade. As explicações neoliberais e keynesianas que ocupam o primeiro plano, não dão respostas significativas.
Claudio Katz
O destravar
Quando os bancos começaram a desmoronar-se, os neoliberais ficaram afónicos e só pensaram em exigir a protecção do estado. Arquivaram as suas doutrinas de livre concorrência e reclamaram o socorro para o sistema financeiro. Argumentaram que as entidades privadas bombeiam o dinheiro requerido pela sociedade e que devem ser preservadas com fundos públicos [1] .
Mas se o coração do capitalismo requer essa sustentação, não têm sentido todos os elogios ao risco e à concorrência como pilares de uma nova era desse sistema. A consistência desses cimentos verifica-se nos momentos críticos e nas áreas estratégicas. É incongruente postular que as privatizações e as desregulações são válidas apenas para momentos de prosperidade. O importante é registar a sua viabilidade em momentos revoltos e é evidente que não passaram essa prova.
Os neoliberais ignoraram todas as advertências do estalar da situação. Ignoraram o descontrolo do endividamento, as alavancagens e os colapsos bancários registados em numerosos países. Quando era evidente que estas eclosões conduziam a um vendaval no centro do sistema reforçaram as suas superstições mercantilistas. Designaram essas comoções de impactos passageiros e atribuíram a sua irrupção a réstias de uma "cultura populista". Essa cegueira exprimiu os interesses de uma elite que rivalizou por açambarcar os lucros do negócio financeiro.
Os neoliberais descobrem agora o lado inverso dessa concorrência exacerbada e explicam o desmoronamento das entidades pela cobiça dos banqueiros. Mas esquecem quão absurdo é reclamar moderação numa actividade tão competitiva. A rivalidade que rege o capitalismo exige a maior crueldade nas finanças. Todos os sermões em voga para restaurar a "ética dos negócios" omitem essa compulsão [2] .
Os economistas ortodoxos detectaram repentinamente as consequências adversas da predisposição para o risco. Esquecem-se dos elogios que prestaram a essa postura, em detrimento do conservadorismo empresarial. No auge enalteceram as virtudes do aventureiro e na crise fazem ressaltar as vantagens da precaução. Mas ignoram sempre que as grandes explosões financeiras não obedecem a uma ou outra conduta individual.
O que determina a marcha ascendente ou descendente da acumulação são as próprias contradições do sistema e não podem impedir os desequilíbrios sistémicos que essa atitude gera.
Alguns economistas premiados atribuem a actual crise aos sofisticados mecanismos de intermediação que iluminaram as finanças. Destacam que "o mercado não valoriza adequadamente esses complexos títulos" [3] . Mas onde ficou a infinita sabedoria da oferta e da procura, em comparação com o estreito horizonte humano dos funcionários? Se agora descobrem a inoperância desse princípio na órbita financeira, porque razão deveria essa mesma norma governar o resto da economia?
A crise em curso enterra o mito que atribui aos banqueiros (e aos seus matemáticos) a qualidade de perceber e gerir de forma rentável os sinais de risco transmitidos pelo mercado. Na realidade esses administradores subvalorizaram as ameaças de colapsos, uma vez que participaram num jogo em que é obrigatório subir sempre a aposta. A regra do benefício crescente impede-os de avaliar os riscos envolvidos nos empréstimos que manuseiam. E quando essas falhas se verificam, descarregam as suas traumáticas consequências sobre o resto da sociedade.
Falta de confiança
Alguns neoliberais atribuem as causas imediatas do tsunami a desacertos das políticas monetárias. Estimam que a redução das taxas de juro praticadas pela Reserva Federal obrigou as entidades a aumentar a concessão de empréstimos [4] . Consideram que a massiva concessão de créditos hipotecários de baixa qualidade (subprime) reproduziu a pauta estabelecida pelo governo norte-americano, na gestão das entidades semi-públicas do sector (Fannie e Freddie) [5] . Seguindo esta lógica, desculpam os bancos pela bolha imobiliária.
Mas na verdade, a objectada diminuição das taxas destinou-se a reactivar a economia e a permitir uma lubrificação dos empréstimos, o que enriqueceu os financeiros. Por isso não questionam neste momento uma política monetária que, além do mais, não os obriga a conceder créditos de qualquer natureza.
Por outro lado, a caprichosa divisão de responsabilidades entre funcionários e banqueiros omite a estreita vinculação que estes grupos mantêm entre si. Os personagens que chegam à administração do FED ou do Tesouro desenvolvem a sua carreira nos grandes bancos e querem retomar esses cargos quando se retirarem da actividade oficial. Longe de sofrer os rigores de certa política monetária, os financeiros participam activamente na fixação dessas orientações, através de distintos comités governamentais.
Perante a falta de argumentos, os neoliberais recorrem a crenças. Converteram a confiança numa palavra mágica, que explica a explosão, a continuação ou a superação da crise. Supõe que o despenhar financeiro irrompeu com a perda dessa qualidade e dissipar-se-á com o seu restabelecimento. O estado de espírito dos empresários é visto como a chave mestra do ciclo económico.
Mas ambos os processos estão ligados por uma causalidade inversa. Os capitalistas investem quando têm ganhos e subtraem capital nos períodos inversos. Por esta razão, enquanto a crise continuar a deteriorar os lucros, nenhuma exortação transformará a inquietação em optimismo. Todas as divagações sobre a confiança retratam somente os diálogos que a classe dominante mantém consigo mesma, na busca de uma luz ao fundo do túnel.
Os porta-vozes mais experientes das finanças reconhecem que "o capitalismo encontra-se encurralado" pela gravidade do descalabro. Mas apostam igualmente numa crise curta e manobrável, que seria coroada com o restabelecimento pleno da "economia de mercado" [6] . Mas esta expectativa contradiz os sombrios diagnósticos que enunciam e choca-se com uma certa perda de consenso neoliberal entre as classes dominantes. Há muita ilusão e pouco realismo na esperança de um tremor irrelevante ou benigno [7] .
Especulação e regulação
Os keynesianos afastaram os seus adversários da cena mediática. Atribuem-se o mérito de ter pressagiado a crise, mediante reiterados questionamentos à desregulação financeira. Mas na sua maioria acompanharam as prioridades da elite bancária e só apresentaram objecções nos últimos anos.
Quando o establishment aplaudia os atropelos sociais inaugurados por Reagan e Thatcher, Stiglitz presidia ao Banco Mundial, Soros enriquecia especulando contra as divisas europeias e Jeffrey Sachs instrumentalizava o ajuste das economias periféricas. Esta mesma mudança de lado regista-se actualmente no sentido inverso. Greenspan modera o fervor neoliberal e Feldstein promove o gasto público. Mas esta flexibilidade de cheirar para onde sopra o vento não é sinónimo de lucidez para caracterizar a crise.
Uma explicação que compartilham as duas vertentes da economia convencional associa o colapso actual com as "bonificações exageradas dos gestores" [8] . Este prémio à especulação é condenado com o mesmo vigor com que se questionam as fraudes perpetradas por personagens como Bernard Madoff. Essas condutas são invariavelmente apresentadas como excepções e não como expressão dominante na actividade bancária actual.
O roubo de 50 mil milhões de dólares de Madoff a poderosas entidades (Santander, BBVA, HSBC, Paribas) através de uma simples pirâmide foi apenas mais um episódio do negócio financeiro. Prometia altos rendimentos por investimentos inexistentes, que disfarçava com a chegada de novos clientes. Com essa manobra estendeu às fortunas das elites os enganos que caracterizam a intermediação. As suas apropriações indevidas caíram em desgraça porque flanquearam a permeável fronteira que separa as actividades toleradas das ilegais.
No ambiente de impunidade neoliberal dos últimos anos cometeram-se todo o tipo de fraudes. Os seus principais artífices foram os bancos e as empresas construtoras que montaram a bolha imobiliária. Os desfalques foram coroados com os 140 mil milhões de dólares que Bush concedeu aos seus banqueiros predilectos, mediante uma manobra obscura de isenção fiscal impositiva.
Este reinado generalizado da espoliação não deveria ocultar que o próprio capitalismo gera periodicamente marés de especulação para aumentar o crédito. Esta expansão requer financeiros com habilidade para inventar refinados instrumentos de endividamento. Como estes indivíduos obtêm ganhos proporcionais às jogatinas que montam, tendem sempre a violar as regras vigentes.
Alguns keynesianos – como Krugman e Samuelson – explicam o excesso de especulação pela ausência de regulação e esperam emendar esta carência com normas mais restritivas [9] . Mas estas regras abundam na selva legislativa manejada por distintos lobbys de banqueiros nos bastidores do poder. Esta estrutura – e não a abstracta ausência de regulamentação – precipitou a crise. Algumas normas tenderam a delegar nos próprios banqueiros a gestão consensual das operações (acordos de Basileia) e outras incentivam uma gestão mais estreita com as autoridades (através da independência dos bancos centrais). Mas as entidades nunca operaram no vazio.
A fantasia de evitar a repetição do estalido financeiro com novas disposições legais recuperou força. Mas estas comoções são inerentes ao capitalismo e não existe nenhuma forma de impedir a sua reiteração. O próprio sistema gera periodicamente pressões para valorizar o capital e cria anticorpos para esterilizar as regulações precedentes. Esta reacção verificou-se, por exemplo, no início do neoliberalismo e voltará a aparecer quando o capitalismo necessitar recompor as taxas de lucro.
Se todo o reboliço em curso derivasse de uma falta de supervisão, não haveria tanto temor pela evolução futura das finanças. Já existe um amplo consenso para modificar o funcionamento dos bancos, verificar as operações bolsistas e limitar o alcance das actividades com maior risco. Mas é óbvio que estas iniciativas só introduzirão correctivos menores.
Os keynesianos idealizam as regulações que os estados capitalistas estabelecem para ordenar o funcionamento dos mercados financeiros. Supõe que estas normas definirão a dinâmica do negócio bancário, omitindo que o essencial é a garantia conferida pelo poder público aos distintos papéis em circulação. O que permite comercializar títulos é a percepção de solidez no aval estatal. Com este apoio fluem as moedas, colocam-se os títulos públicos e intercambiam-se os documentos privados. Quando essas garantias falham, as regulamentações perdem relevância e as crises assumem a gravidade que se observa na conjuntura actual.
Os economistas heterodoxos desconhecem por completo este problema. Como são fiéis do capitalismo e do estado supõem que basta estabelecer óptimas regulações para favorecer o bem comum. O salvamento dos bancos refutou categoricamente essa presunção. Mas, além disso, abriu-se uma crise que pôs em dúvida a capacidade do estado de proteger os títulos em circulação. Esta vulnerabilidade não depende de uma ou de outra regulação, mas sim da gravidade e da evolução do crack financeiro.
Mas o que mais chamou a atenção nos últimos meses foi o temor reverencial exibido pelos keynesianos em relação aos financeiros. Krugman e Stiglitz propiciaram o salvamento dos bancos sem olhar a custos nem impor penalidades. Constatam a "armadilha de liquidez" propagada pelos bancos – ao receberem auxílios estatais que os enriquecem sem reactivar o crédito – mas não aplicam nenhum correctivo.
As estrelas do pensamento económico actual também notam o escasso impacto que têm as decrescentes taxas de juro sobre a melhoria do investimento ou do consumo. Sabem que os bancos aproveitam os preços baixos dos fundos disponíveis para compensar as quebras, reconverter as suas operações ou adquirir outras entidades. Este bloqueio poderia reverter-se com medidas de expropriação, mas os novos mimados do establishment arquivaram qualquer estratégia de eutanásia do rentista.
Os keynesianos pretendem dissuadir a especulação sem obstruir a rivalidade pelo lucro. Nas crises enfatizam o primeiro objectivo e na prosperidade apontam-lhe o segundo propósito. Mas ignoram sempre que ambas são periodicamente soterradas pela própria reprodução capitalista.
Coordenação e reactivação
Muitos keynesianos atribuem a propagação global da crise à "escassa coordenação que os governos mantêm". Especialmente Krugman e Stiglitz destacam esta carência [10] . Advertem contra a expansão não consensual dos gastos públicos, as desvalorizações sem consulta e o proteccionismo comercial.
A sua exigência de sincronização reflecte o carácter internacional da crise. Como o temor sacode a principal economia do planeta, o contágio à Europa e Japão é tão acelerado como a fracassada separação da semi-periferia emergente. Nem sequer a Suíça ou o Golfo Pérsico conseguiram afastar-se do tsunami financeiro que já travou a locomotiva chinesa e ameaça reproduzir as comoções de que padecem a América Latina e o Sudeste Asiático.
Este alcance planetário induz a procura de remédios coordenados pelos economistas heterodoxos. Por isso objecta-se à salvação à custa do vizinho que predominou no início da crise. Especialmente na Europa, a disputa brutal entre os países para preservar os depósitos bancários conduzia à sua fusão. O mesmo efeito tendia a gerar a política simultânea de aumentar (Banco Central Europeu) e reduzir (Reserva Federal) as taxas de juro.
Todos os keynesianos agora aplaudem a adopção generalizada do modelo inglês de capitalização bancária como correctivo da crise. As diferenças de aplicação que separam os franceses (ingerência estatal nas administrações) dos norte-americanos (ausência de interferência na gestão) e a pressão britânico-americana para manter o livre movimento de capitais em Nova York e Londres não alteram esta busca de uma resposta comum ao descalabro financeiro.
Nas propostas em debate os economistas heterodoxos reivindicam as iniciativas que tendam a diminuir a gravitação dos paraísos fiscais, reduzir o protagonismo das classificadoras de risco e introduzir mecanismos de alerta bancário. Também dão o seu aval ao corte das retribuições aos executivos e à modificação das normas de funcionamento bancário global (Basileia II). Mas nenhuma destas mudanças é substancial e a sua aplicação exige um fim (ainda incerto) do despenhamento financeiro.
O desenho de "um novo Bretton Woods" apregoado por Stiglitz é mais ambicioso, mas flutua no ar [11] . Definir um novo prestamista internacional de última instância e estabelecer os critérios de outra moeda (cabaz, multilateral, Bancor) requer uma certa estabilização da tormenta financeira. E este compromisso, por sua vez, pressupõe um desenlace das relações de força entre as potências, que apareceria mais no final e não no início da crise.
A indefinição que impera em volta do dólar e do euro é um nítido sintoma do carácter inicial deste tremor. O bilhete estado-unidense transformou-se no refúgio espontâneo de todas as classes dominantes do planeta. Mas o descomunal défice fiscal e comercial dos EUA põe em dúvida a continuidade dessa tendência.
O euro também ofereceu protecção aos capitais que abandonam as divisas dos países europeus mais ameaçados (Polónia, Dinamarca, Suécia, Islândia). Mas não se sabe como responderá esta moeda ao descalabro dos convénios orçamentais de Maastricht. Mais perigoso ainda é o transbordante endividamento que registam vários países do Velho Continente (Itália, Grécia, Espanha).
Todos os apelos angelicais à "coordenação internacional" disfarçam as duras regras da realpolitik que imperam nos encontros oficiais. Na cimeira que em Novembro passado reuniu 20 presidentes, os Estados Unidos exigiram um compromisso geral com o seu resgate financeiro. Pretendem garantir especialmente a contínua afluência em direcção ao Norte dos fundos acumulados pela Ásia e pelos países exportadores de petróleo.
Com esta finalidade, ao "Grupo dos 7" foram adicionadas a China, Rússia, Brasil, Índia e Arábia Saudita. A presença de outros países é um formalismo diplomático, uma vez que a Argentina, Indonésia, México ou Turquia figuram na lista de países receptores de dinheiro, e não na de países provedores do mesmo. Nas próximas cimeiras, Obama tentará continuar esta política de atracção de capitais para os EUA.
Todas as mensagens keynesianas para "reformar o FMI" com a "nova arquitectura financeira" caíram, subjugadas pela prioridade da reconstrução dos bancos malparados.
Com a finalidade de relançar o Fundo como administrador desse socorro, já se discute a concessão de atribuições aos novos contribuintes de capital. Essas iniciativas poderiam também ser acopladas ao trespasse de acções dos bancos mais aflitos aos seus mecenas da Ásia ou do Mundo Árabe. Mas em qualquer caso o FMI continuará a actuar como representante dos credores contra os povos da periferia.
Este papel – que não perturba Stiglitz ou Krugman – desmente as fantasias que exibem alguns presidentes latino-americanos sobre uma viragem benevolente do FMI. As expectativas de "empréstimos sem condições para os mais necessitados" foram destruídas pelos recentes créditos concedidos à Ucrânia ou à Hungria (e negociados com a Islândia e o Paquistão). Estes acordos incluem todas as exigências de ajuste neoliberal.
Os keynesianos vivem como um triunfo a aplicação actual das suas orientações. Supõe que esta implementação confirma a superioridade do seu programa. Mas esta viragem apenas ilustra a afinidade que mantêm com os seus adversários. O FMI e todos os governos conservadores abraçaram as propostas da reactivação porque na crise as classes dominantes recorrem aos gastos públicos para travar a recessão.
Obama prepara-se para lançar o maior plano de infraestruturas dos últimos 50 anos (136 mil milhões de dólares). Este mesmo tipo de gastos será instrumentalizado pelos presidentes neoliberais da Europa (170 mil milhões de euros) e o mandatário de direita do Japão (255 mil milhões de dólares). O propósito comum destas iniciativas é auxiliar os banqueiros e industriais afectados pela implosão financeira.
Os keynesianos aplaudem o socorro mas advertem contra o seu eventual fracasso, se as decisões se aplicarem de forma tardia, com instrumentos inadequados ou com doses reduzidas. A obviedade deste tipo de raciocínio salta à vista: se as medidas dão resultado confirmam a sua conveniência e se falham demonstram a sua insuficiência.
Mas a severidade da crise induz os papas da heterodoxia a reclamar também maiores impostos a ricos e menores gastos militares (Stiglitz) ou o bombear directo de mais dinheiro oficial, ultrapassando a intermediação bancária (Krugman). Em comparação com as iniciativas que debatem outros economistas do mesmo círculo, estas propostas sobressaem pela sua cautela [12] .
Todos os keynesianos esperam o ressurgimento do capitalismo com políticas anticíclicas. Desconhecem as limitações destas orientações e o seu escasso impacto fora de certas condições. Para compreender o que está a acontecer é necessário recorrer a outras teorias.
Notas
1- Wolf Martin, "É hora de um resgate abrangente no mercado", Financial Times- Folha de São Paulo, Outubro 2008
2- "Assistimos ao perigoso esquecimento dos cimentos morais (do capitalismo). O respeito da palavra empenhada, a santidade dos contratos, o valor da poupança e… a renúncia aos ganhos instantâneos", Grondona Mariano "El capitalismo, la democracia y la integridad", La Nación , 21/12/08
3- Selten Reinhard "Criar uma regulação que não se possa evitar". Clarín , 23/11/08
4- Marx Daniel "A crise terminou, virão mais ajustes", Ámbito Financiero, 19/03/08
5- Edwards Sebastián, "Não temer o pragmatismo" Clarín , 26/10/08
6- The Economist-La Nación " El capitalismo está acorralado, pero aún sirve" 18/10/08
7- Os teóricos da direita transmitem esta mensagem tranquilizador, afirmando que "um capítulo encerra-se… mas são maluquices as teses de que outro mundo é possível e do fim do imperialismo ou do capitalismo", Jorge Castañeda, La Nación , 24-12-08.
8- Phelps Edmund, "Los bancos deberán buscar un nuevo rol", Clarín , 23-11-08.
9- "Houve um sistema financeiro paralelo, sem as regulamentações tradicionais", Krugman Paul "El gobierno argentino está haciendo un poco mejor las cosas", Clarín , 16-12-2008. Krugman Paul, "No llores por mi, Estados Unidos", New York Times-La República , 18-10.08. Krugman Paul, "Bancos: iliquidez o insolvencia", New York Times-Clarín , 29-12-07. Krugman Paul, "Planes de estímulo débiles y con serios errores", New York Times-Clarín, 31-1-08 . Krguman Paul, "La economía real también necesita un gran rescate", New York Times-La Nación , 18-10-08. Samuelson Paul, "Mercado no es igual a capitalismo sin regulación", Clarín , 23-11-08.
10- Krugman Paul "La riesgosa negativa de Alemania", New York Times-La Nación 17-12-08. Stiglitz Joseph, "Ahora todos somos keynesianos, incluso la derecha", 10-12-08.
11- Stiglitz Joseph, "El dólar ya no sirve como reserva", Clarín, 23-11-08.
12- Reich planeou aplicar a lei de quebras aos bancos para implementar a sua reorganização sob protecção judicial (capítulo 11) e Roubini sugeriu paralisar as execuções hipotecárias. Reich Robert, "El rescate equivocado", New York Times-Clarín , 12-12-08. Roubini Nouriel, "La recesión llegó a EEUU y podría durar hasta 2009", Clarín, 25-1-08. .
[*] Economista, argentino, investigador e professor, membro do EDI (Economistas de Izquierda). Este texto é uma versão reduzida do artigo com o mesmo título. Traduzido por João Camargo.
O original encontra-se em El Viejo Topo , Nº 253.
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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