"A chispa"

Este blog é um espaço para o debate e para a produção de pensamento crítico desde a educação. A idéia nasce da tentativa de alguns estudantes e professores de História e Filosofia de socializar experiências e construir práticas alternativas; Fazer um processo coletivo de produção de conhecimento, indagando a função social do professor e ao mesmo tempo pensar a "práxis" de maneira coerente e comprometida com a nossa realidade social. Neste espaço debateremos questões teóricas relacionadas a educação e também abriremos o espaço ao debate político, pois é inegável a relação que existe entre educação e política. Convidamos a todos aqueles que queiram fazer o debate sério e propositivo. Mãos a obra e ao debate!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

ADONIRAN BARBOSA: SAUDOSO MALANDRO



• Há 25 anos, em 23 de novembro de 1982, morria Adoniran Barbosa, um dos músicos mais geniais e irreverentes da MPB. Nascido em Valinhos (SP), em 1910, com o nome de João Rubinato, este filho de imigrantes italianos talvez tenha sido um dos que mais profundamente incorporou as contradições e o “espírito” da capital paulista que, entre os anos 1930 e 60, transformou-se no centro industrial e financeiro do país no mesmo ritmo em que suas “malocas” eram derrubadas e seu povo empurrado para os arredores das estações da ferrovia.

Um compositor que, como poucos, soube mergulhar no sofrido cotidiano do povo, em seus amores muitas vezes destrambelhados e nas muitas facetas da sociedade brasileira. 



Crônicas com sotaque popular


Com cerca de 12 anos, Adoniran abandonou a escola e passou a percorrer as ruas da Grande São Paulo como entregador de marmitas. Anos depois, já na capital, fez um pouco de tudo. Foi vendedor, pedreiro, garagista, mascate, encanador, garçom e metalúrgico.

Foi vagando pela cidade e no contato direto com suas camadas mais populares, que Adoniran compôs sambas embriagados pelo linguajar das ruas e de seus muitos migrantes e imigrantes. Nesse sentido, o fato do bairro do Bexiga estar no centro de sua obra não é mero acaso. Afinal, no decorrer do século, suas ruas e vielas abrigaram sucessivamente ex-escravos negros, migrantes italianos pobres e, finalmente, um agitado centro da boemia paulistana.

Sua carreira teve início em 1934, depois de vencer um concurso de marchinhas. O sucesso lhe rendeu um convite para trabalhar como ator cômico, locutor e discotecário na Rádio Record, onde Adoniran criou personagens tão antológicos, críticos e populares quanto os de suas músicas, como Charutinho que, direto do fictício Morro do Piolho, espinafrava a elite, os preconceitos e os costumes da época.

O sucesso chegou em 1955, com a gravação de dois de seus “clássicos”: “Saudosa maloca” e “Samba do Arnesto”. E, mesmo assim, foi passageiro, fazendo com que Adoniran só voltasse a estourar de novo dez anos depois, quando – numa evidente demonstração de sua “universalidade” – a paulistaníssima “Trem das Onze” venceu um concurso de músicas carnavalescas em plena “capital do samba”, o Rio de Janeiro, tornando-se a música mais tocada no Carnaval de 1964. Na ocasião, a música foi interpretada pelos “Demônios da Garoa”, grupo desde sempre identificado com a obra do compositor.

Sua obra foi marcada por um caminho bastante diferente da maioria dos sambistas, de sua época. Enquanto na década de 50, a maioria dos sambistas – seduzida pelo mercado radiofônico e pelo discurso desenvolvimentista dos “Anos J.K.” – embalava os ritmos populares em letras recheadas de exaltações ao modo de vida e aos valores burgueses, Adoniran caminhava no sentido oposto.

Seus personagens e “heróis” são os desabrigados, os trabalhadores informais, os negros e, também, as mulheres que, apesar de marcadas pelo machismo, vez ou outra conseguem romper com a opressão, como são os casos da “Malvina” e da “Gerarda”, que abandonam seus chorosos maridos, ou da “Carolina”, que sai da favela para se tornar escritora.

São, enfim, os “desajustados”, que vagam solitários em meio à crescente multidão que ocupa uma cidade cuja elite quer transformar em símbolo do “progresso”, do trabalho e da ascensão social. Um projeto obviamente pensado a partir da marginalização de um povo jogado à sua própria sorte.



Malandragem “à paulista”


Em “Güenta mão, João”, por exemplo, Adoniran se remete ao sempre trágico problema das enchentes (“Não reclama / porque o temporal / destruiu teu barracão. / Não reclama, / güenta a mão, João. (...) Não reclama,/ pois a chuva só levou a tua cama”). Já em “Conselho de mulher”, os alvos são o discurso patronal e desenvolvimentista (“Progréssio, progréssio / Eu sempre escuitei fala / Que o progréssio vem do trabaio / Então amanhã cedo nois vai trabaia”). E, em “Luz da Light” a ironia se volta contra os apagões na periferia e nos morros.
Uma das carac terís ticas mais marcantes de Adoniran é o uso da fala das ruas, que revestida com sarcasmo e ironia, inverte valores e desmonta a “seriedade” do discurso dominante, inclusive do ponto de vista gramatical. Adoniran levava para suas músicas a rica fala que brotou do encontro de negros e imigrantes. Como ele próprio dizia: “O que eu escrevo está lá direitinho no Bexiga. Lá é engraçado... o crioulo e o italiano falam igualzinho”.

Esse passeio pelas bordas da sociedade contaminou até mesmo seu universo “romântico”. “Iracema” (1956), por exemplo, vítima da urbanização da cidade, parte para “juntinho de nosso sinhô”, depois de ser atropelada na Av. São João, deixando para trás apenas suas meias e sapatos. Fato, diga-se de passagem, inspirado numa notícia de jornal.

Contudo, foi em “Tiro ao Álvaro” (1960) que Adoniran promoveu um dos encontros mais belos entre as coisas do coração e as conturbações da realidade. Afinal, foram poucos o que conseguiram traduzir os descaminhos do amor de forma, ao mesmo tempo, tão “mundana” e poética como nos seus versos: “Teu olhar mata mais do que bala de carabina / Que veneno e striquinina / que peixeira de baiano / Teu olhar mata mais do que atropelamento de automóvel / Mata mais que bala de revórver”.



Viveu e morreu entre os seus


Uma faceta pouco conhecida de Adoniran foram suas passagens pela TV e pelo cinema, onde foi para lá de eclético. Fez chanchadas, como “Pif-Paf” (1945); teve uma participação de destaque em “O cangaceiro” (1953), um dos maiores sucessos do cinema brasileiro. Na televisão, participou de novelas como “Mulheres de Areia” e “Ovelha Negra”.

Esse “ecletismo” também se manifestou em sua obra musical, da qual consta, por exemplo, o belíssimo samba-canção “Bom dia, tristeza”, em parceria com Vinícius de Morais e gravado por Aracy de Almeida.

Apesar de ter conhecido o sucesso pouco antes de sua morte, Adoniran nunca foi totalmente digerido pelos meios de comunicação, tendo gravado só três discos (todos entre 1973 e 80), além dos “compactos” da década de 50.
No final de sua vida, um tanto amargurado por ver sua música saindo das periferias para ser resgatada apenas nos círculos “intelectuais”, Adoniran ainda enfrentou uma situação financeira bastante delicada.

Conhecido por gastar seus rendimentos com a boemia e com uma “generosidade” desgovernada com seus amigos de boteco, Adoniran morreu empobrecido. Mas não só devido a seus “exageros”. Pelo contrário. Assim como muitos daqueles que o inspiraram, Adoniran viveu, a partir de 1972, dependendo de uma mísera pensão de aposentado e dos poucas e mal pagas apresentações que fazia em circos e pequenos shows.


Por Wilson Silva


A tendência à barbárie e as perspectivas do socialismo


A tendência à barbárie e as perspectivas do socialismo

JAMES PETRAS


As sociedades ocidentais e os Estados estão se deslocando inexoravelmente para condições semelhantes à barbárie; mudanças estruturais estão revertendo décadas de bem–estar social e sujeitando o trabalho, os recursos naturais e as riquezas das nações à exploração bruta, à pilhagem e ao saque, rebaixando os padrões de vida e causando descontentamento num nível sem precedentes.
 
Inicialmente, descreveremos os processos econômicos, políticos e militares que vêm abrindo este caminho à decadência e à decomposição social, e a seguir mostraremos a reação das massas populares à deterioração de suas condições de vida. As profundas mudanças estruturais que acompanham a ascensão da barbárie constituirão a base para considerar as perspectivas para o socialismo no século XXI.
  A crescente onda de barbárieNas sociedades antigas, a “barbárie” e os seus portadores – os “bárbaros” invasores – foram vistos como uma ameaça vinda das regiões periféricas de Roma ou Atenas. Nas sociedades ocidentais contemporâneas, os bárbaros vêm de dentro, da elite, com a intenção de impor uma nova ordem que corrói o tecido social e a base produtiva da sociedade, convertendo meios de subsistência estáveis em condições deterioradas e inseguras da vida cotidiana.
 
A chave para a barbárie contemporânea encontra-se nas estruturas internas do Estado imperial e da economia. Estas incluem:
 
1. A ascensão de uma elite financeira e especulativa, que tem saqueado trilhões de dólares dos poupadores, investidores, mutuários, consumidores e do Estado, subtraindo enormes recursos da economia produtiva e colocando-os nas mãos da camada parasitária aninhada no Estado e nos mercados financeiros.
 
2. A elite política militarista, que vem supervisionando um estado de guerra permanente desde meados do século passado. Terror de Estado, guerras intermináveis, assassinatos em zonas fronteiriças e a suspensão das garantias constitucionais tradicionais levaram à concentração de poderes ditatoriais, prisões arbitrárias, torturas e à negação do habeas corpus.
 
3. Em meio a uma profunda recessão econômica e estagnação, os altos gastos do Estado na construção de um império econômico e militar, a expensas da economia nacional e dos padrões de vida, refletem a subordinação da economia local às atividades do Estado imperial.
 
4. A corrupção desde o topo, visível em todos os aspectos da atividade do Estado - desde as aquisições de bens e serviços até a privatização e os subsídios para os super-ricos – incentiva o crescimento do crime internacional de cima para baixo, a lumpenização da classe capitalista e um Estado onde a lei e a ordem se encontram em descrédito.
 
5. Resultantes dos elevados custos de construção do império e da pilhagem da oligarquia financeira, os encargos sócio-econômicos recaem diretamente sobre os ombros dos trabalhadores assalariados, aposentados e trabalhadores por conta própria, determinando uma grande mobilidade descendente na escala social ao longo do tempo. Com a perda de empregos e o desaparecimento das posições mais bem remuneradas, as retomadas de casas pelos bancos crescem exponencialmente e as classes médias, antes estáveis, encolhem, e os trabalhadores são forçados a alongar suas jornadas de trabalho diárias e a trabalhar durante um maior número de anos.
 
6. As guerras imperiais, que se espalham pelo mundo e são direcionadas a populações inteiras, que sofrem com os bombardeios e as operações clandestinas de terror, geram, em oposição, redes terroristas, que também atingem alvos civis nos mercados, transportes e espaços públicos. O mundo vai se parecendo ao pesadelo hobbesiano de “todos contra todos”.
 
7. Um crescente extremismo etnorreligioso ligado ao militarismo é encontrado entre os cristãos, judeus, muçulmanos e hindus, que substitui a solidariedade de classe internacional por doutrinas de supremacia racial e penetra as estruturas profundas dos Estados e das sociedades.
 
8. O desaparecimento dos Estados europeus e asiáticos de bem-estar social coletivo – nomeadamente, a ex-URSS e a China – levantou as pressões competitivas sobre o capitalismo ocidental e o encorajou à revogação de todas as concessões de bem-estar social obtidas pela classe trabalhadora no período pós-II Guerra Mundial.
 
9. O fim do “comunismo” e a integração da social-democracia ao sistema capitalista levaram a um enfraquecimento severo da esquerda, que os protestos esporádicos dos movimentos sociais não conseguiram substituir.
 
10. Diante do atual assalto às condições de vida dos trabalhadores e da classe média, só se vêem protestos esporádicos, no melhor dos casos, e impotência política, no pior.
 
11. A exploração maciça do trabalho nas sociedades capitalistas pós-revolucionárias, como a China e o Vietnã, compreende a exclusão de centenas de milhões de trabalhadores migrantes dos serviços públicos elementares de educação e saúde. A pilhagem sem precedentes e a captura, por oligarquias nacionais e multinacionais estrangeiras, de milhares de lucrativas empresas públicas estratégicas da Rússia, das repúblicas da ex-União Soviética, dos países da Europa Oriental, dos Bálcãs e dos países bálticos, foi a maior transferência de riqueza pública para mãos privadas, em curto espaço de tempo, em toda a História.
 
Em resumo, a barbárie surgiu como uma realidade definida, produto da ascensão de uma classe dominante financeira parasitária e militarista. Os bárbaros encontram-se aqui e agora, presentes dentro das fronteiras das sociedades ocidentais e seus Estados. Eles governam e perseguem agressivamente uma agenda que está continuamente a reduzir os padrões de vida, a transferir a riqueza pública para os seus cofres privados, a pilhar recursos públicos, a violar direitos constitucionais no exercício de suas guerras imperiais, a segregar e perseguir milhões de trabalhadores imigrantes e a promover a desintegração e o desaparecimento do trabalho estável e de classe média. Mais do que em qualquer outro momento na história recente, o 1% mais rico da população controla uma parcela crescente das riquezas e das rendas nacionais.

  Mitos e realidades do capitalismo históricoA retirada, em grande escala e de forma sustentada, dos direitos sociais e previdenciários, da segurança no emprego, e as reduções de salários e aposentadorias, demonstram a falsidade da ideia do progresso linear do capitalismo. Essa reversão, produto do poder ampliado da classe capitalista, demonstra a validade da proposição marxista de que a luta de classes é o motor da História – na medida em que, pelo menos, a própria condição humana é considerada como sua peça central.
 
A segunda premissa falsa – a de que os estados organizados em “economias de mercado” têm como pré-requisito a paz, tendo como corolário a ascendência dos “mercados” sobre o militarismo – é refutada pelo fato de que a principal economia de mercado – os Estados Unidos – tem permanecido em constante estado de guerra desde o início da década de 1940, estando ativamente engajada em guerras em quatro continentes, até os dias de hoje, e com perspectiva de novas, maiores e mais sangrentas guerras no horizonte. A causa e consequência da guerra permanente é o crescimento de um monstruoso “Estado de segurança nacional” que não reconhece fronteiras nacionais e absorve a maior parte do orçamento do país.
 
O terceiro mito do “capitalismo avançado maduro” é o de que este sempre revoluciona a produção através da inovação e da tecnologia. Com a ascensão da elite financeira especulativa e militarista, as forças produtivas foram saqueadas e a "inovação" é em grande parte direcionada à elaboração de instrumentos financeiros que exploram os investidores, reduzem os ativos e acabam com o trabalho produtivo.
 
Enquanto o império cresce, a economia local se contrai, o poder está centralizado no Executivo, o poder Legislativo é reduzido e aos cidadãos é negada uma representação efetiva, ou mesmo o poder de veto através de processos eleitorais.

  A resposta das massas ao aumento da barbárieA ascensão da barbárie em nosso meio tem provocado revolta pública contra seus principais executores. As pesquisas de opinião têm reiteradamente encontrado:
 
1. Profunda aversão e revolta contra todos os partidos políticos.
 
2. Grande desconfiança, nutrida pela maioria da população, contra a elite empresarial e política.
 
3. Rejeição, também pela maioria, da concentração de poder corporativo e do seu abuso, principalmente por parte dos banqueiros e financistas.
 
4. Questionamento amplo das credenciais democráticas dos líderes políticos que agem a mando da elite empresarial e promovem as políticas repressivas do Estado de segurança nacional.
 
5. Rejeição, pela grande maioria da população, da pilhagem do Tesouro Nacional para salvação dos bancos e da elite financeira, com a imposição de programas de austeridade regressivos sobre a classe média trabalhadora.

  Perspectivas para o socialismoA ofensiva capitalista teve certamente um grande impacto sobre as condições objetivas e subjetivas da classe média trabalhadora, empobrecendo-a e provocando uma onda crescente de descontentamento pessoal, que ainda não se traduziu numa movimentação anticapitalista massiva, ou mesmo numa resistência dinâmica e organizada.
 
As grandes mudanças estruturais requerem um melhor entendimento das atuais circunstâncias adversas e a identificação de novas instâncias e meios onde se desenvolvem a luta de classes e de transformação social.
 
Um problema-chave é a necessidade de se recriar uma economia produtiva e reconstruir uma classe trabalhadora industrial após anos de pilhagem financeira e desindustrialização, não necessariamente para as poluidoras indústrias do passado, mas certamente para novas indústrias que criem e utilizem fontes de energia limpa.
 
Em segundo lugar, as sociedades capitalistas altamente endividadas necessitam, fundamentalmente, sair do modelo de construção imperial militarista de alto custo em direção a um modelo de austeridade financeira baseado na classe e que imponha os sacrifícios e as reformas estruturais aos setores bancário, financeiro e comercial de grande varejo, que substitui a produção local pela importação de artigos de consumo de baixo custo.
 
Em terceiro lugar, o enxugamento do setor financeiro e do comércio retalhista exige a melhoria das qualificações dos trabalhadores que serão deslocados ou desempregados, bem como mudanças no setor de TI, de forma a acomodar as próprias mudanças econômicas. Exige, também, a mudança de um paradigma – da renda monetária para o rendimento social – em que a educação pública e gratuita de alto nível, o acesso universal à saúde e as aposentadorias abrangentes substituirão o consumismo global financiado por dívidas. Isso pode se tornar a base para o fortalecimento da consciência de classe contra o consumismo individual.
 
Esta é a questão: como passar de uma posição em que a classe trabalhadora se encontra fragmentada e enfraquecida e os movimentos sociais em recuo ou na defensiva, a uma posição em que seja possível lançar uma ofensiva anticapitalista?
 
Vários fatores subjetivos e objetivos já permitem o trabalho nesse sentido. Primeiro, há uma negatividade crescente contra a grande maioria dos atuais operadores políticos e, em particular, contra as elites econômicas e financeiras que estão claramente identificadas como responsáveis pelo declínio nos padrões de vida. Em segundo lugar, há o ponto de vista popular, compartilhado por milhões de pessoas, que os atuais programas de austeridade são claramente injustos - com os trabalhadores a pagar pela crise que a classe capitalista produziu. Até o momento, no entanto, estas maiorias são mais “anti”-status quo do que “pró”-transformação. A transição do descontentamento privado para a ação coletiva é uma questão em aberto quanto a quem a desencadeará e como o fará, mas a oportunidade está presente.
 
Existem vários fatores objetivos que podem deflagrar uma mudança qualitativa do descontentamento, deslocando-o da raiva passiva rumo a um maciço movimento anticapitalista. Um “duplo mergulho” na recessão, o fim da atual recuperação anêmica e o início de uma recessão mais profunda e prolongada ou de uma depressão, poderia desacreditar ainda mais os governantes atuais e seus aliados econômicos.
 
Em segundo lugar, o aprofundamento interminável da austeridade poderá desacreditar a noção atual, difundida pela classe dominante, de que os sacrifícios atuais são necessários para se obter ganhos futuros, abrindo as mentes e encorajando os corpos a se moverem à procura de soluções políticas, de forma a alcançar ganhos no presente e infligir dor às elites econômicas.
 
As inesgotáveis e “invencíveis” guerras imperiais que sangram a economia e a classe trabalhadora podem, em última análise, criar uma consciência de que a classe dominante oferece “sacrifícios” à nação sem nenhuma finalidade “útil”.
 
Provavelmente, o efeito combinado de uma nova etapa da recessão, a austeridade perpétua e as estúpidas guerras imperiais acabarão por transformar o mal-estar atual e a difusa hostilidade das massas contra a elite econômica e política em favor dos movimentos socialistas, partidos e sindicatos.

JAMES PETRAS é professor emérito de Sociologia na Universidade Binghamton, em Nova York