"A chispa"

Este blog é um espaço para o debate e para a produção de pensamento crítico desde a educação. A idéia nasce da tentativa de alguns estudantes e professores de História e Filosofia de socializar experiências e construir práticas alternativas; Fazer um processo coletivo de produção de conhecimento, indagando a função social do professor e ao mesmo tempo pensar a "práxis" de maneira coerente e comprometida com a nossa realidade social. Neste espaço debateremos questões teóricas relacionadas a educação e também abriremos o espaço ao debate político, pois é inegável a relação que existe entre educação e política. Convidamos a todos aqueles que queiram fazer o debate sério e propositivo. Mãos a obra e ao debate!

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A mídia e a política de massas


Por James Petras

Debates e estudos sobre os meios de comunicação (MC) têm focado a sua parcialidade política, propriedade e ligações às grandes empresas, relações e laços com o Estado, abertura e diversidade relativas, promoção de guerras e interesses corporativos, entre outros grandes problemas que afetam as relações de poder, riqueza e imperialismo. De particular interesse para os autores que se opõem ou apóiam o papel dos MC é o impacto que estes têm, ao influenciar a visão geral do mundo, opiniões e comportamentos das pessoas. Ensaios, monografias e estudos empíricos têm sido publicados quanto à extensão da influência dos MC, o período de tempo durante o qual mantém controle, a profundidade das opiniões inculcadas pelos MC e o 'lugar' que as mensagens transmitidas pelos MC têm na indução da opinião pública à conformidade com os interesses da classe dominante.

Uma compreensão do papel e poder dos MC na atual sociedade capitalista exigem-nos que organizemos um debate compreendendo três grandes escolas – Conservadora, Liberal e Marxista – antes de procedermos a uma análise crítica e finalmente apresentarmos notas destinadas a criar alternativas às redes de informação e comunicações controladas pelas elites.

Paradigmas em competição: conservador, liberal e marxista

O paradigma conservador, ou 'pluralista', largamente propagado pelos cientistas sociais dos EUA e Europa, enfatiza as múltiplas vozes, as redes em competição, o mercado de informação e a diversidade de opiniões. Os conservadores – 'pluralistas', afirmam que mesmo se a posse da mídia estiver concentrada e a sua mensagem deturpada a favor do status quo, os meios de comunicação são simplesmente uma 'ferramenta', contrabalançada por outras 'ferramentas', tais como os 'grandes números' de votantes de baixos salários. Embora concedendo que haja um acesso desigual aos meios de comunicação entre trabalhadores e o capital, regimes pró-guerra e oposição anti-guerra, afirmam que a oposição também tem alguns meios de acesso ao mercado, através de numerosos escritores e agentes de difusão: O controlo sobre a mídia é 'desigual mas disperso'. Discutem ainda que, com o crescimento da Internet, há múltiplas fontes de informação e que o monopólio da mídia tem sido seriamente diluído, efetivamente 'democratizando' o 'sistema de comunicação'. Os ideólogos pluralistas mais astutos citam estudos empíricos, a demonstrarem que a maior parte das visões que os indivíduos têm é formada pelas suas famílias, amigos e vizinhos – relações face-a-face, muito mais que os 'impessoais' media. Em suma, os conservadores defendem que não existe uma toda-poderosa elite dos meios de comunicação e que a extensão em que existe é contrabalançada pelos meios de comunicações alternativos, opiniões locais e pelo sua própria tolerância a opiniões diversas e concorrentes.

O paradigma liberal dos meios de comunicação

O paradigma liberal descreve os MC como o instrumento chave da dominação pela classe dominante numa democracia liberal. Começando com o registro histórico da concentração da propriedade da mídia nas mãos de um pequeno grupo de corporações interligadas com a área dos negócios e com o Estado, os MC são vistos como um componente essencial do 'sistema de controlo' que perpetua a classe dominante e a construção de impérios pelo seu controlo e doutrinação da opinião pública. A maioria da população é convertida numa massa maleável, induzida na conformidade com os interesses e políticas da classe dominante, assim prevenindo a mudança e perpetuando o domínio pela elite corporativa. Para os liberais o controlo de cima para baixo pelos mass media explica o 'paradoxo' de um império altamente desigual e orientado para a ação militar, no contexto de um sistema político livre e democrático. O principal papel dos acadêmicos é convencer outros acadêmicos a desmascarar os media, a expor as suas fabricações, mentiras e hipocrisias, enfatizando as 'contradições' entre os 'nossos' valores democráticos e as mentiras dos poderosos. A versão mais radical da visão 'liberal' dos mass media atribui o alto grau de consenso entre as elites e as massas nos Estados Unidos à onipresença e onisciência dos mass media.

Crítica marxista

A abordagem marxista aos MC começa necessariamente com a crítica às perspectivas conservadora e liberal. Contra a crítica conservadores, aponta que 'poder' não é um recurso imaterial desencarnado, mas uma relação em que os proprietários da riqueza e poder podem multiplicar e acumular bens políticos e econômicos. A presunção que 'toda a gente' ou todos os grupos podem ter alguma influência esquece-se do fato de que os proprietários dos meios de comunicação estão ligados a outros poderosos grupos econômicos, que têm poder sobre bancos, investimentos, trust funds, e estes, por sua vez, influenciam líderes políticos e partidos, controlando legislação, seleção de candidatos, gastos governamentais e agendas dos governos: tudo isto mina as fundações e validade do paradigma pluralista. Em todos os grandes eventos da nossa época, os meios de comunicações ecoaram fielmente as linhas políticas do Estado capitalista, justificando a invasão do Iraque, demonizando o Irã e ecoando a linha que o Estado assume em relação ao programa nuclear do Irã, aos bloqueios na Palestina, à invasão do Líbano e ao salvamento da Wall Street. Em todos os grandes eventos, os mass media unificaram-se, desempenhando um papel de liderança na propagação da mensagem da classe dominante entre as massas, com variáveis graus de sucesso.
O paradigma liberal do 'determinismo dos mass media' parece ser mais credível, uma vez que o seu diagnóstico da estrutura de poder e posse dos MC correspondem à realidade, assim como corresponde o seu papel de propagandista das mentiras do Estado acerca de guerras e economia. No entanto, quando abordamos a imagem liberal dos MC controlando a opinião pública e as atitudes das massas, as asserções dos todo-poderosos, todo-controladores da mídia tendo grande sucesso em manipular o público, as assunções já são questionáveis.
Historicamente, o monopólio oligárquico de controlo da mídia tem sido mal sucedido quanto ao moldar de atitudes e de ações das massas em grande número de importantes contextos políticos. Isto é verdade inclusivamente para os Estados Unidos. Por exemplo, apesar do apoio unânime dos MC à privatização do Programa Federal de Segurança Social, ao gigantesco salvamento público da Wall Street, à continuação da ocupação militar do Iraque, à escalada militar no Afeganistão e ao atual sistema de saúde lucrativo privado, a grande maioria do público dos EUA opõe-se fortemente à linha seguida pelos MC. Apesar dos líderes e maiorias dos dois partidos políticos governantes não refletirem a opinião pública, uma maioria dos americanos tem consistentemente apoiado um sistema de saúde nacional de âmbito universal, a retirada das tropas americanas e tem-se veementemente oposto ao apoio do Congresso à Wall Street e à indústria da grande finança. Uma análise revela que os MC são influentes a moldar a opinião pública à classe dominante e políticas do Estado no que se refere á política externa, em particular as políticas de guerra, no início do conflito, com a agressão ou postura militarista a ocupar uma posição dominante antes dos custos econômicos e humanos serem trazidos para o interior do país, para os cidadãos norte-americanos no seu dia-a-dia. Os MC são relativamente ineficazes no que se trata de medidas de política interna, que afetam adversamente a vida socioeconômica diária da massa do povo americano. Os MC operam com mais sucesso quando dominam o fluir e o acesso à informação, como no que se refere à política externa, onde podem fabricar distorcer e carregar emocionalmente o que é visto e ouvido pelo público. Em contraste a propaganda de classe dos MC é severamente enfraquecida pelas evidências da experiência empírica, quando os americanos sentem na pele os problemas da sua saúde, pensões, salários e emprego. Os marxistas defenderiam que condições econômicas específicas criam consciência de classe, o que contrabalança o poder dos MC.
A fraqueza do ponto de vista liberal acerca do domínio dos meios de comunicação encontra-se na falha em levar em conta o impacto dos contextos de classe, as restrições nas crises econômicas, os custos de guerra, o impacto da mobilidade social descendente e a importância de uma segurança social básica na sua avaliação das operações dos MC. A maior parte da teoria liberal da mídia baseia-se numa visão seletiva de contextos, temas e locais que apóiem essa teoria. Por exemplo, os mass media e a conformidade das massas 'encaixam' num período de economia em expansão, mobilidade social ascendente, paz relativa ou intervenções militares menos dispendiosas, em particular no que se refere a temas de política externa. O apoio de longo prazo dos MC ao capitalismo ou ao 'mercado livre' domina as opiniões das massas até ao colapso do capitalismo: Com as crises e o desmoronamento do sistema financeiro e especialmente com a perda de pensões por milhões de pessoas, até alguns propagandistas nos MC aperceberam-se que a sua posição era indefensável. A visão liberal da onipotência e dominância dos MC sob a opinião pública é profundamente imperfeita e esquece-se de levar em conta as mudanças político-econômicas que resultam do forte desvio que a opinião pública tem tomado em relação à propaganda dos MC.

Mídia e a política de massa

A perspectiva marxista

A perspectiva marxista relativiza a influência dos MC fazendo com que o seu poder sobre as massas em função do grau em que os trabalhadores e seus aliados de classe dependam exclusivamente dos MC para obterem informação e para definirem os seus interesses políticos e ação social. Os marxistas argumentam que os MC exercem máxima influência onde há pouca ou nenhuma organização de classes ou luta de classe (como nos EUA). Em contraste, onde há ou houve organização de classe, como na Venezuela ou na Bolívia, no Chile dos anos 70 ou na América Central dos anos 80, os mass media têm um impacto bastante mais fraco na opinião pública. Os marxistas argumentam que onde há uma história e cultura da classe trabalhadora, camponesa, índia ou outros movimentos baseados em classe e solidariedade de classe, a propaganda da classe dominante ou do Estado, promovida pelos MC, tem apenas um efeito muito fraco. Nessas situações, as massas têm uma estrutura preexistente, redes de comunicações e líderes de opinião locais, os quais filtram mensagens/propaganda que violem a solidariedade social/de classe/étnica/nacional.
Por exemplo, no Chile, durante a presidência de Salvador Allende (1970-73), a vasta maioria da imprensa opunha-se violentamente ao Presidente Democrata Socialista – no entanto Allende venceu a eleição, a esquerda aumentou a sua votação nas subseqüentes eleições municipais e parlamentares, baseando-se no apoio esmagador dos trabalhadores, camponeses pobres, índios e desempregados residentes em bairros de lata.
Mais recentemente na Venezuela, a vasta maioria dos MC tem-se oposto ao Presidente Chávez (1998-2008) em todas as eleições parlamentares e municipais, mas, no entanto ele venceu massivamente eleições. Em ambos os casos, programas socioeconômicos (grandes aumentos em programas de saúde e educação, distribuição de terras, mobilidade ascendente, programas de salários progressivos, nacionalização de recursos básicos), forte apoio baseado em classe e mobilizações em massa, criando consciência de classe, minaram a eficiência dos mass media.
Por toda a América Latina durante a primeira década do novo milênio, poderosos movimentos populares cresceram em número de membros e em organização, apesar da intensa demonização pelos MC. No Brasil os Trabalhadores Rurais Sem Terra expandiram-se e apoiaram as ocupações de terras apesar da criminalização da sua atividade pelos MC. O mesmo é verdade para os movimentos de mineiros, trabalhadores, camponeses e índios na Bolívia – que levaram à queda dos presidentes neoliberais apoiados pelos MC. Movimentos de massas similares derrubaram presidentes apoiados pelos MC na Argentina (2001) e Equador (2000 e 2005).
Esses casos ilustram condições contingentes e circunstanciais que influenciam o domínio dos MC sobre a opinião pública. Existem várias condições comuns em todos esses casos:
1. Elos históricos, culturais, comunitários ou familiares podem criar um 'bloco' ou um 'filtro' à propaganda dos MC, especialmente em temas socioeconômicos que afetem o emprego, a vizinhança ou o nível de vida.
2. A luta de classes cria laços de classe horizontais, especialmente em resposta à repressão pelo Estado ou classe dominante, da qual resulta o declínio dos níveis de vida, concentração de riqueza, desalojamentos em massa e migrações forçadas. A luta de classes cria respostas positivas a mensagens que reforçam a luta e rejeitam as mensagens dos media publicamente identificados como tomando o partido da classe dominante.
3. As organizações de classe fornecem uma base alternativa para entender os eventos e para definir os interesses de massas em termos de classe, que possam ressoar com a sua experiência quotidiana e fornecer informação e interpretação que contrariem aquelas dos MC. Quanto mais alto o grau de organização de classe, maior a solidariedade e luta de classe e menor o impacto dos MC na opinião pública. O contrário é também verdade. Nos Estados Unidos, onde os sindicatos são geridos por funcionários que ganham 300 mil dólares ou mais por ano, que enfatizam a colaboração com os patrões (ou que rejeitam publicamente políticas de luta de classe) e que não conseguem organizar 93% da força de trabalho privada, os MC têm menos dificuldades em influenciar a opinião pública.
4. Quanto mais fortes forem as redes alternativas de formação de opinião, mais fraca a influência dos MC. Onde os movimentos sociais desenvolvam organizações locais, líderes de opinião e ativistas comunitários, mais dificilmente as massas extrairão as suas informações acerca de eventos dos formais e distantes MC. Em muitos casos, as massas acedem seletivamente aos MC para entretenimento (desporto, novelas, comédias), rejeitando as suas notícias e editoriais. Famílias multi-geracionais que vivam em proximidade, localizadas em vizinhanças homogêneas e ocupacionais, com forte história de construção baseada na classe geram solidariedade de classe e mensagens sociais que entram em conflito com as mensagens da classe dominante que promovem 'iniciativa privada' e 'micro-capitalismo de sucesso' ou a criminalização de ações coletivas de classe. Tanto a visão liberal como a conservadora dos MC esquecem-se do contexto de classe na receptividade e poder dos media; os pluralistas subvalorizam propositadamente a sua capacidade de dominar em tempos de fraca organização de classe; os liberais sobreavaliam o poder dos MC, ignorando o poder oposto de organizações de classe, lutas de classe, cultura, história, tradições familiares e solidariedade que ligam indivíduos à sua classe e minam a receptividade às mensagens da classe dominante presentes nos MC.
          







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